terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A história de Dom José Vicente Távora - 2/2


Padre dos pobres e bispo dos operários. A história de Dom José Vicente Távora
A relação de proximidade com a classe operária fez Dom José Vicente Távora ficar reconhecido como padre dos pobres. Mais tarde, como bispo no Rio de Janeiro, envolvido com a JOC, “ele se autodenominava o bispo dos operários”, conta Isaias Nascimento

Por: Patricia Fachin

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IHU On-Line - Qual a relação de Dom Távora com o padre Leopoldo Brentano?

Isaias Nascimento - Sei que os dois se encontraram no Rio para preparar o Primeiro Congresso dos Operários de Pernambuco que aconteceu em Goiana, Pernambuco, no dia 30 de dezembro de 1938. Não tenho notícias de qualquer relação anterior. Dizem que foi a partir do sucesso do referido que Congresso, que reuniu milhares de trabalhadores vindos em delegações do Nordeste e do Brasil, que Pe. Leopoldo Brentano sugeriu o nome do Pe. Távora ao Cardeal Leme para ele atuar na Capital Federal junto aos Círculos Operários. Fato que aconteceu no final de 1939 para o início dos anos 1940.

IHU On-Line - O senhor diz que a amizade entre Dom Hélder e Dom Távora deu origem a uma transformação nas estruturas e estratégias da Ação Católica Brasileira. Em que consiste essa transformação e qual o impacto dela na tarefa de evangelização do país?

Isaias Nascimento - Primeiro, os dois eram nordestinos que conheciam a sina dos filhos da seca e vítimas das cercas. As favelas da então Capital Federal (Rio de Janeiro) mostravam seus irmãos nordestinos enxotados pela miséria e pela fome. O clamor dos pobres subiu até Deus que, por sua vez, comprometeu os dois nordestinos a verem nos seus irmãos o Cristo Crucificado e por Ele neles entregarem suas vidas. O clamor dos pobres os intimou a descer até eles. Foi por eles, portanto, os excluídos, que ambos se chamavam de “Eu”, assumindo juntos um mesmo projeto de vida sacerdotal, tanto como padres, e depois como bispos. Dom Távora e Dom Hélder firmaram uma aliança de nordestinos em defesa dos excluídos nordestinos, os da Capital Federal e os que estavam na terra natal. Eles comprometeram e pagaram, ao longo de suas vidas, todo tipo de perseguições, críticas jornalísticas, acusações mentirosas, mas não se desviaram do compromisso social com o Ecce Homo – Eis o Homem (João 19, 4-5) continuamente crucificado.
Várias iniciativas aconteceram em todo o Brasil, principalmente no Nordeste, a fim de levar propostas para erradicar a miséria e a fome na região. Desde o encontro dos Bispos do Vale do São Francisco em Aracaju (em 1953), depois em Campina Grande (26-05-1956) e Natal (23 a 27-05-1959).

Aqui eu me somo à resposta de Raimundo Caramuru que nos oferece mais informações. Veja o que ele descreve: “Ao longo dos anos 1940, três acontecimentos foram de capital relevância para a trajetória de Pe. Hélder e sua contribuição aos rumos da Igreja no Brasil. O primeiro foi sua amizade com o Pe. José Távora, um outro sacerdote nordestino, que Dom Leme havia trazido de Recife no início dos anos 1940, para desenvolver a pastoral operária na arquidiocese do Rio de Janeiro. Como os Círculos Operários do Pe. Leopoldo Brentano já estivessem atendendo os trabalhadores sindicalizados, Pe. Távora dedicou-se ao trabalho com aqueles que hoje seriam categorizados como excluídos, na sua maioria imigrantes recentes provenientes das áreas rurais do país, alojados nas periferias urbanas e nos morros favelizados. Este trabalho iniciado por Pe. Távora levantou o problema das favelas e das migrações, bem como suas conexões com os desafios enfrentados pelas populações rurais. A amizade entre Hélder e Távora teve um outro desdobramento, que deu origem ao segundo acontecimento, que, na realidade, havia constituído o grande sonho do Cardeal Leme nos últimos anos de vida deste insigne prelado: uma transformação nas estruturas e estratégias da Ação Católica Brasileira, adaptando-as às necessidades das tarefas de evangelização do país. Este segundo acontecimento foi tornado possível pelo contato de Hélder e Távora com o fundador da Juventude Operária Católica – JOC, o padre belga, altamente prestigiado pelo papa Pio XI , Joseph Cardijn . À primeira vista o segredo estava na pedagogia do ver-julgar-agir. Pouco a pouco, porém, tomou-se consciência de que muito mais do que uma opção pedagógica, a linha adotada por Cardijn implicava em uma opção teológico-pastoral, que aproximava o esforço de evangelização das suas fontes bíblicas e patrísticas e retomava toda a riqueza contida na teologia do Desígnio divino e na história da salvação” .

IHU On-Line - Por que, e em que contexto, Cardeal Leme chamou Dom Távora para trabalhar no Rio de Janeiro?

Isaias Nascimento - Creio que um dos fatores é que o Brasil estava se industrializando e a classe operária também se organizava em todo o país, tanto nas capitais como no interior. A ideologia comunista tomava corpo em várias categorias de trabalhadores das áreas urbana e rural, e no meio estudantil nas faculdades. A ida do Pe. Távora ao Rio de Janeiro foi para reforçar a equipe do Cardeal, da qual já fazia parte o Pe. Hélder Câmara, na execução de um “contra ataque” que tanto marcou a história da Igreja no Brasil, que foi o fortalecimento da Ação Católica Brasileira entre a elite intelectual e, mais tarde, a presença no meio dos jovens através das Juventude Agrária Católica - JAC, Juventude Estudantil Católica - JEC, Juventude Independente Católica - JIC, Juventude Operária Católica - JOC e Juventude Universitária Católica - JUC por onde a Igreja procurava evangelizar a sociedade à luz da Doutrina Social da Igreja.

IHU On-Line - Como o senhor descreve a atuação de Dom Távora na Juventude Operária Católica - JOC?

Isaias Nascimento - Ainda quando padre no Rio de Janeiro, ele participou da reestruturação da Ação Católica Brasileira a partir da visão do Pe. Cardijn, da Bélgica e fundador da JOC. A partir daí ele fundou a JOC do Rio de Janeiro cujo objetivo era formar operários católicos missionários atuando entre seus iguais para “converter a Jesus Cristo, não apenas este ou aquele colega individualmente, nem mesmo dezenas e dezenas de colegas, mas o próprio operariado”. Nas reuniões se usava o conhecido método de Cardijn: ver-julgar-agir, (que até hoje é usado pela Igreja na construção de seus documentos, a exemplo de Puebla e Aparecida), que ajuda a ler a realidade, analisar os dados coletados, e a construir novas ações/reações pastorais.
Dom Távora fez opção pela classe operária desde o início de sua vida sacerdotal lá na diocese de Nazaré da Mata, em Pernambuco. Para ele, a JOC era “uma sementeira de líderes para o futuro” dentro do movimento operário. Ele mesmo disse que a “classe operária precisa dirigir-se com autonomia, com independência e grandeza, mas isto não pode ocorrer se ela não tem militantes de seu próprio meio, bem formados, capazes de tomar posição conscientemente, em todos os problemas que interessam ao bem do povo especialmente, quando se tratar da libertação econômica, social, moral e espiritual do mundo do trabalho. A JOC luta por um tempo diferente deste que está aí, cheio de clamorosas injustiças, de privilégios inaceitáveis e desacertos que revoltam, a cada instante. Onde houver um problema operário, particularmente dizendo respeito ao presente e ao futuro da juventude trabalhadora, aí estará presente sempre a JOC, atenta, ativa, cônscia de sua missão, isto é, a missão de fazer um programa de redenção da classe operária” (entrevista cedida ao jornal A Cruzada, 07-12-57).

Podemos vislumbrar aqui o início de uma revolução na prática pastoral da Igreja, começado lá na Europa, pois se inicia a semeadura de uma Igreja comprometida com os pobres. Vários padres que foram assistentes da Ação Católica e/ou da JOC foram nomeados bispos – Dom Hélder, Dom Távora e Dom Antonio Fragoso - que fizeram a diferença quando da realização do Concílio Vaticano II, clamando por uma Igreja a serviço dos pobres. Eles formavam o grupo conhecido “Igreja dos Pobres”. Podemos vislumbrar aqui as sementes da Teologia da Libertação e do compromisso da Igreja com os pobres do nosso continente.

IHU On-Line - Em que consistiu o 1º Plano de Pastoral, proposto por Dom Távora. O que isso significou para a Igreja a partir de 1966?

Isaias Nascimento - Consistia na reorganização da Pastoral da Igreja local à luz do Concílio Vaticano II e ao Plano Nacional de Pastoral de Conjunto 1966-1967, como está registrado na apresentação do referido Plano:
“No começo de 1966, após o encerramento do Concílio, para responder ao convite do Papa, que num discurso importante, engajava todos os Bispos da América Latina numa renovação de caráter extraordinário, unitário e planificado, sentimos a necessidade de reunir com Dom Távora, alguns presbíteros, religiosas e leigos para, juntos, estudarmos o referido discurso de Paulo VI, refletirmos em comum, determinar os setores prioritários de pastoral.

O primeiro encontro foi realizado nos dias 18 e 19 de fevereiro. No seu comentário do discurso do Papa, Dom Távora ressaltou as seguintes palavras: “Precisamos duma pastoral dinâmica adaptada às transformações atuais”. Em círculos, tentamos descobrir “essas transformações”. Esta reflexão em comum permitiu determinar como [estruturar] setores prioritários na pastoral da Arquidiocese: setor estudantil e setor operário. Um grupo de trabalho para cada setor seria encarregado de dinamizar a pastoral dos mesmos. Houve tentativas de criação do Grupo de Trabalho do setor estudantil, sem sucesso. O GT do setor operário se reuniu semanalmente, coordenando todos os movimentos católicos.

Após os dias de estudo realizados em fevereiro, a Equipe Central do Secretariado recebeu e estudou o Plano Nacional de Pastoral de Conjunto 1966-1967, elaborado pelo Secretariado Nacional de Pastoral da CNBB, o qual convidava todas as dioceses a um esforço de renovação de conjunto, e aconselhava cada diocese elaborar um plano de pastoral, enquadrando-se nas diretrizes do Plano Nacional.
Em março deste mesmo ano (1966) a referida equipe elaborou um pré-plano (maio de 1966 – novembro de 1966) cuja finalidade seria levar presbíteros, religiosos e leigos da Arquidiocese a uma consciência mais objetiva da necessidade de uma pastoral de conjunto, a fim de poderem atuar ativamente na elaboração e na execução do Plano Diocesano, baseado nas diretrizes do Plano Nacional. Para atingir este objetivo, foi tomada como primeira iniciativa a criação da Assembleia Arquidiocesana, constituída de presbíteros, religiosos e leigos que, com o Sr. Arcebispo, devia assumir mais diretamente a elaboração do Plano Diocesano. Foi também lançado um boletim mensal de pastoral, órgão de ligação dos membros da Assembleia Arquidiocesana. E de informação pastoral para o clero.
Paralelamente foram planejados um programa de atualização para o clero, para as religiosas e para os leigos e um programa de dinamização dos serviços mais necessários para desenvolver uma pastoral de conjunto” .
Na prática, encontramos algumas experiências que, devido ao contexto da ditadura militar e às tensões internas na Igreja, em Aracaju, duraram pouco tempo: as comunidades sacerdotais (grupo de padres assumindo áreas pastorais) comprometidas com o homem do campo e comunidades de religiosas inseridas no meio dos pobres. Encontramos também sementes de formação de comunidades eclesiais nas periferias de Aracaju e a relação estreita da Igreja com a classe trabalhadora, principalmente do meio rural.

Texto: reproduzido do site ihuonline.unisinos.br
Foto: reproduzida do blog merciaoliva.blogspot.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 17 de fevereiro de 2013.

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